segunda-feira, 16 de novembro de 2009

muito estranho...

Estranho? É, a vida é estranha. Num momento somos os explorados, peças utilizadas pelo sistema, que podem ser descartadas e trocadas a qualquer momento. No outro, estamos no topo (seja lá o que for esse topo capitalista...), somos os vencedores (ah, doce ilusão!), mas negamos que um dia estivemos em baixo. Alguns argumentam que jamais se esqueceram de suas origens, mas em compensação não fazem nada para mudar a situação de quem ficou para trás. E o mais estranho é o fato de que aqueles que acreditam que fazem algo muitas vezes estão simplesmente contribuindo para a manutenção e reprodução do que já existe. A ideologia dominante é tão estranha que faz com que os que acham que estão mudando ou melhorando a realidade (por que não nos incluirmos nesta categoria também? Afinal a vida é estranha...) na verdade estão apenas contribuindo para a continuação das relações existentes. Mas querem ver algo de mais estranho? Não sou o primeiro a mostrar essa contradição, obviamente. Essa visão de realidade já foi enxergada há séculos, mas mesmo assim "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais".
Algo estranho ocorreu nos últimos dias, algo que foi acompanhado por toda a coletividade brasileira: a história de uma jovem, vítima de comentários sobre sua pessoa, dentro de uma instituição de ensino. Não preciso contar a história toda, afinal vocês já conhecem. A indignação provocada nas pessoas após este episódio foi grande: como uma coisa dessas ainda pode acontecer em nossos dias de tamanha "liberdade" e "conscientização"?
É óbvio que a atitude tomada pelos alunos foi totalmente irracional e errônea. Afinal, eles estavam lá para estudarem ou para procurar confusão? E a Universidade? Preferiu expulsar a aluna para não prejudicar sua imagem, mas só piorou a situação (será que ninguém pensou nas consequências da opinião pública sobre essa decisão? Bom, se ninguém pensou nisso, então estamos diante de uma instituição sem pensadores...estranho não?); a readmissão dela poderia ter sido evitada se ela nem tivesse sido expulsa.
Mas, alguém pode argumentar: mais uma vez você só está dizendo o que já foi dito! Bom, primeiramente agradeço pela paciência por lerem até aqui, mas agora falarei sobre o que está em minha "mente".
Num dia, ela era a estudante injustiçada, agredida sem motivo algum. No outro, ela era uma celebridade. Aliás, esse é um dom do capitalismo das noticias: pegue um fato, aumente a história, coloque com a opinião de "especialistas" (especialistas de que, pra que e de quem?) e pronto! É só vender, consumir e exibir - mas isso é assunto pra outro momento.
Não quero dizer em momento algum se ela estava certa ou errada, ao entrar na instituição com aquela vestimenta; tenho a minha opinião quanto a isso, mas no momento não vem ao caso. Quero chamar a atenção para o fato de que no primeiro momento, ela foi aclamada como um símbolo (efêmero, com certeza, mas ainda um símbolo...) das pessoas que ainda sofrem com o preconceito em qualquer lugar, seja no trabalho, na escola, sei lá aonde; um símbolo de pessoas que contestam valores ou "status" sociais, mesmo que essa não tenha sido sua intenção.
O que me chama a atenção foi o que veio a seguir. Não tenho certeza, mas acho que ela apareceu em quase todas as redes de televisão do país. E não era pra levar a causa dos injustiçados adiante. Virou celebridade. Por mais que seu discruso fosse em apoio aos que ainda sofrem de preconceito, seus motivos de aparecerem na TV eram outros. Assisti ela em um desses programas, e achei muito interessante a fala dela. Deu pra notar na prática o que Marx já escrevia em A Ideologia Alemã, sobre aqueles que quando estão por baixo, lutam por seus companheiros de classe, mas ao ascenderem querem é fazer parte da classe dominante...e que os outros que se virem...Hoje, ao abrir a Internet, vi uma noticia de que ela gravou mais um programa de TV, e dessa vez é um de humor. O que tem a ver esse programa com a história dela (que, aliás, praticamente já teve um desfecho...mas como ainda dá lucro, continua sendo vendida) é uma incógnita. Estranho, não?
Quero dizer aqui que não é a pessoa dela que está sendo atacada. Eu nem a conheço, não posso fazer algum tipo de juízo sobre ela. O que eu considero estranho, talvez nem consiga expressar. A sociedade se moveu por esta causa. Por que não se mobiliza por outras também? O sistema permite que algumas revoltas aconteçam, para que aquelas que realmente deveriam acontecer nem se quer são concebidas. E a ideologia capitalista, o que tem a dizer? As oportunidades só acontecem uma vez na vida, então agarre-a o máximo possível e tente conseguir lucro com momentos ruins. Os demais? Ah, mano, aqui é cada um por si rapaz. Afinal, o sucesso só depende de você.
Estranho, não?

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